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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Once Upon a Time...








"Era uma vez" é a tradução não literal do título deste post. E é o início da maioria dos contos de fadas na forma como eles me eram contados quando criança. Lembro que meu pai sentava no criado-mudo que ficava entre a minha cama e a de minha irmã e, ali, iniciava alguma história para nos embalar até dormir. Não lembro se elas se repetiam, mas me recordo do clichê "era uma vez"...

Era uma vez uma princesa que morava num castelo. Ela era linda e pouco conhecida, pois havia, neste mesmo castelo, um dragão que a aprisionava na mais alta torre, não deixando que ela pudesse ver o mundo ou que este pudesse apreciá-la. Certa vez, um jovem rapaz, corajoso, simples e bem intencionado, pousou seus olhos na princesa. Foi por um breve momento. Bem rápido mesmo! Mas foi o suficiente para ele se ver enlaçado num mundo de sonhos e desejos que, direta ou indiretamente ou mesmo direta e indiretamente, levavam a ela, ou a margeavam ou a tinham por objetivo... 

A princesa presa no castelo, inatingível, agora era uma luz a ser seguida... Ou talvez perseguida... Seja como for, a princesa aprisionada agora o tinha aprisionado. E dali pra frente ela seria apenas (e só para ele próprio) conhecida como Sua Princesa.

Reconhece o contexto? Pois é, esse é o corpo básico de todo conto de fadas que envolve os temas amor, paixão, busca, encontro... enfim. Eu nunca entendi esse tipo de história. Na verdade, entendo sim, mas nunca imaginei que ele possuísse um componente de realidade que lhe dá origem. Hoje enxergo claramente a realidade retratada na metáfora da "Princesa Presa no Castelo".

Rápido como um raio, a princesa tomou seus pensamentos e, mais rápido do que isso, tomou seu coração. Como aconteceu? Só Deus sabe. A vida do jovem rapaz agora foi levada para outro rumo. Novos objetivos surgiram e velhos vieram à tona. Coisas esquecidas foram lembradas e o que era problema, no novo contexto, parecia oferecer solução... 

Como alcançá-la? Como chegar à sua princesa? Ela está na torre mais alta e essa torre é protegida por um Dragão... Impossível!



Quem é esse Dragão? Ele não possui um nome... Aliás, ele não possui só um nome. Possui vários e se reveste das mais variadas formas sempre que precisa proteger a princesa de qualquer um que tente se aproximar. O dragão é toda e qualquer barreira psicológica, moral ou emocional que reside no "eu" da princesa e que a leva a sabotar para si própria a possibilidade de viver uma grande paixão ou mesmo encontrar um amor verdadeiro. Ele pode estar presente também naquele que a busca - neste conto, o jovem apaixonado - mas, como este está apaixonado, tal sentimento ocupa tanto espaço de seu ser que o "cega" para várias coisas, inclusive aquelas que poderiam ser representadas pelo dragão desta história.

E o que é essa torre? Essa torre é simplesmente a separação física entre este jovem e "sua" princesa (entre aspas porque ninguém é de ninguém). Para os apaixonados, seria bom se o corpo conseguisse percorrer distâncias, seja ela qual for, tão rápido quanto o coração. Mas o mundo físico não é igual ao mundo espiritual ou mesmo o emocional. É possível amar alguém de longe, mas não poder tocar ou confortar essa pessoa cria um empecilho quase intransponível a esse sentimento. A torre alta, a meu ver, representa a impossibilidade material de se alcançar a "princesa". Pode ser uma distância, um outro alguém ou ainda uma incapacidade interna do jovem apaixonado em aproximar-se de sua amada.
Ele quer alcançar o alto da torre de qualquer forma. Planos foram traçados e estão em execução. A escalada já começou! O resultado? Novamente, só Deus sabe. Ele pode cair da torre, ela pode não ter forças para lhe puxar quando ele lhe bater a janela. Ele pode não vencer o Dragão. Outra pessoa pode subir mais rápido. Ela pode não sentir por ele o que ele sente por ela... Enfim... Mas o jovem anseia por fitar os olhos de sua princesa novamente, nem que seja apenas uma vez mais, e não vai deixar que essas dificuldades o desanimem.

É assim que funciona para quem está apaixonado, é ou não é? Nada é uma dificuldade e tudo vale a pena. Realmente, muita coisa pode acontecer. Coisas ruins, inclusive. Engraçado que estas (as possibilidades ruins) povoam a mente quase que inteiramente. Talvez seja assim por serem estas a saída mais rápida, mais fácil. E é mais fácil mesmo: uma vez que se decide que não é possível, pode-se parar todo o esforço que antes se fazia para encontrar ou estar com aquela pessoa e tranquilamente retornar-se à zona de conforto (o que não é necessariamente uma coisa boa; a zona de conforto muitas vezes atrapalha a consecução de objetivos).

Mas, como diria uma amiga minha, nada que valha a pena vem fácil. 

Muita coisa pode acontecer mesmo e nem todas elas são ruins. Ele pode galgar o cume da torre, vencer o Dragão, tomar sua princesa em seus braços e viver ao lado dela uma vida feliz, plena e simples.

Diferente desse, ou desses, se incluirmos o que disse mais acima, ainda existem tantos outros resultados que fica difícil enumerá-los... Mas o que sei é o seguinte: o caminho só existe quando você passa, já dizia a música do Skank (no tempo em que era uma boa banda).

O que conseguir nessa caminhada, ou como resultado dela ou de seu fim, será lucro em forma de aprendizado, amadurecimento e, como tudo na vida, uma preparação para o que espera mais à frente.

E esse resultado, para ser sincero, nem é a coisa mais importante na história. Mas o que quero dizer é que, mais importante do que o objetivo almejado é o caminho que se percorre para chegar até ele.

Ops... Isso já estava dito. Sem problema.
É isso.

Falou.

sábado, 3 de abril de 2010

Como treinar o seu Dragão





Adoro animações. Adoro desenhos animados também. Então as duas coisas juntas dão muito certo para mim.

ALERTA: Se você ainda não viu este filme, não leia.

O filme é a história de uma comunidade viking que vive em uns rochedos à beira-mar e tem como atividade principal matar dragões. Na verdade a atividade principal é sobreviver, como todo ser humano, mas, no filme, matar dragões é uma parte importante deste processo.

Para contar essa história, temos o garoto Soluço, filho do chefe da aldeia. Soluço é um menino magricela bom em mecânica e desenhos que sonha em ser um bom matador de dragões como seu pai e os demais homens da aldeia.

Ele é um cara desastrado para esta específica atividade, o que mostra que não é de sua essência matar dragões. No entanto ele anseia por tal coisa, pois foi criado e aprendeu que aquilo é o que é certo, ou melhor, ou mais digno, ou etc... A história das nossas vidas não? Quem aqui nunca desejou ser algo ou alguém por mera influência, por imposição cultural ou para atender as expectativas daqueles a quem devemos prestar contas de nossas vidas até ficarmos independentes (leia-se pai e mãe)!? É isso.

O filme é legal, bem movimentado e não achei chato ou enfadonho em nenhum trecho.

Começa com os dragões atacando a aldeia para roubar ovelhas. O Soluço, quando os bichos desferem o ataque, consegue derrubar um dragão ultra-mega-super perigoso (até prova em contrário) com uma máquina que, acho eu, ele construiu, mas ninguém acredita nele, pois, para todos, ele é desastrado demais para conseguir pegar um dragão, ainda mais aquele.

Ele vai atrás do tal dragão abatido e o encontra machucado. Tenta matá-lo e não consegue, o que revela sua natureza. Ele o solta, o dragão ataca, mas igualmente não mata o garoto, o que já mostra a primeira noção de equilíbrio do filme: se não me fizeres mal, não te farei mal.

O dragão, mesmo livre, fica preso numa clareira, pois, quando derrubado, perdeu uma das asas traseiras, que aparentemente servem de leme, e assim não conseguia mais voar de forma controlada. Soluço vê a situação e decide ajudar.



A partir daí, o filme gira em torno de duas realidades: a do garoto e aquilo que ele é (quando ele está com o dragão e cuida dele para que ele possa voltar a voar); e a do garoto com aquilo que ele deve ser (na aldeia, inicia-se o treinamento para matar dragões e ele é escalado para participar).

Ao mesmo tempo em que o Soluço é convocado para o treinamento, seu pai, rei da aldeia, sai com os guerreiros para tentar achar o ninho dos dragões e com isso eliminá-los de uma vez.

À medida em que Soluço cuida do dragão e tenta consertar sua cauda com uma de suas engenhocas, vai conhecendo os hábitos destes animais e aplicando esse conhecimento no treinamento contra dragões. Com isso, ele ganha destaque entre os alunos.

No processo de consertar a cauda do Fúria da Noite (dragão ultra-mega-super perigoso abatido), acontece de, em certo momento, o animal alçar vôo com o moleque acidentalmente em cima dele, e este acaba se dando conta de que precisa de um mecanismo para controlar a asa artificial que projetou, se não o dragão não teria controle ao voar.

Ele aprende então a voar com o dragão, que recebeu o nome de Banguela, e este aprende que precisa do Soluço para voar. Está feita a simbiose. No mesmo processo, ambos aprendem que podem conviver juntos e que a razão para se matarem é uma questão de necessidade imposta por fatores externos que nada dizem respeito à relação homem-dragão, ou seja, homem e dragão podem ser amigos.

Durante este aprendizado (como voar com um dragão, ou, para este, como voar com um ser humano) eles dão vários passeios pelo ar, inclusive chegando, meio que sem querer, até o ninho dos dragões.



O ponto alto do filme acontece quando Soluço, em virtude de ter se destacado no treinamento, ganha o direito de matar um dragão na arena de treino, mas hesita e diz que não pode fazer aquilo, assumindo perante todos, inclusive perante o pai (que retornara da busca pelo ninho sem sucesso) a pessoa que ele realmente é.

Então ele não mata o dragão, mas este, acuado, ataca o garoto. O Banguela, de longe, lá na clareira onde ficou preso e onde tanto tempo passou com o Soluço, escuta o garoto em perigo e vai salvá-lo. Aí é uma confusão: prendem o Banguela, o pai do Soluço fica decepcionado com ele, porque ele, em vez de matar, é amigo de um dragão, etc. O garoto dá com a língua nos dentes e diz que o Banguela uma vez o levou para o ninho. O pai prende o Banguela num barco e vai atrás do ninho. Ele encontra e descobre que um dragão do tamanho do Godzila é a razão pela qual os outros dragões atacam a aldeia: se não o fizerem, o dragãozão vai devorá-los.

Acontece uma briga gigantesca. O Banguela e o Soluço salvam o dia e o garoto perde uma perna no processo, quando despenca do céu para a morte certa, mas é salvo pelo Banguela. Isso é um ponto interessante no filme. Ele perde uma perna, mas essa perda fica reduzida diante da alegria que é ver o garoto vivo, bem como as transformações no modo de vida da aldeia que ele produziu com seu comportamento "rebelde" e a atitude de, em vez de matar, compreender os dragões.

Todos na aldeia agora tem um dragão para voar e tudo fica bem.

No fim, fica bem clara a idéia de que alguém, por ser diferente de todos ou da maioria, pode ser exatamente aquele que faz a diferença que importa, a diferença que todos precisam para viver melhor. E a tal da perna perdida... É um choque, mas logo você esquece, pois, como disse, fica bem definido que essa perda é pequena diante da vida, agora preservada, do próprio Soluço, e diante das mudanças promovidas pelo mesmo. Ou seja, o Soluço, agora espiritualmente inteiro e em paz consigo mesmo e com seus pares, se tornou bem maior do que suas partes... Bem maior inclusive do que sua perna.

E ele continua com o Banguela. E ganha a garota bonita. E o respeito do pai.

Fim.